SÃO PAULO | ZÜRICH

 
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Overlock | Carlos Mélo

Overlock | Carlos Mélo
Rafael Kamada

CARLOS MÉLO | OVERLOCK

Carlos Mélo apresenta esculturas têxteis na série “Overlock”

Artista brasileiro utiliza tecido reciclado da indústria da sua região em obras elaboradas junto com artesãs locais

O artista visual Carlos Mélo apresenta “Overlock”, série de obras criadas durante a pandemia do novo coronavírus em que refletem sobre o impacto ambiental e cultural provocado pela indústria têxtil na região Agreste de Pernambuco, Brasil, com a consolidação de um Polo de Confecções responsável por alterar completamente a dinâmica econômica do lugar de tradição agrícola e pecuária. O tecido, principal matéria-prima da cadeia produtiva local, foi apropriado por Mélo como elemento de arte contemporânea, transformando-o em esculturas têxteis e performáticas, num diálogo com a trajetória do artista, que tem a experimentação de materiais, a escultura e a performance como marcas de sua criação.

Nascido em Riacho das Almas, município do Estado de Pernambuco, onde reside e executou o projeto, Carlos Mélo impregna este trabalho de temas que estão à sua volta, reforçando seu interesse em criar ponte entre arte e comunidade. O título da série, “Overlock”, é comum na região: é o nome de uma máquina de costura industrial bastante utilizada por efetuar, ao mesmo tempo, a costura e o acabamento. As obras tiveram como espaço expositivo a Vila do Vitorino, na zona rural.

“As peças são obras autônomas, mas também criam uma instalação. A ideia da exposição virtual foi montar as esculturas inseridas na paisagem ampliando o campo relacional entre a arte e o lugar, a natureza e a tecnologia, além do artista como agente cultural capaz de não apenas produzir obras de arte, mas também produzir sentido”, diz Carlos Mélo. O trabalho foi selecionado pela Lei Aldir Blanc, no Edital de Criação, Fruição e Difusão da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco (Secult-PE) e Fundação de Cultura de Pernambuco (Fundarpe).

O tecido utilizado em “Overlock” é uma espécie de “jeans encorpado” confeccionado pelo Daterra Project (@daterraproject), que desenvolve um trabalho sustentável na Vila do Vitorino ao aproveitar ourelas (beirais) de jeans que seriam descartadas pela indústria da moda, resultando em um novo tecido. Em seguida, com o Avoante Ateliê (@avoanteateliedearte), Carlos Mélo interviu com bordados e aplicações de spikes e outros elementos, transformando o tecido, como faz a moda a cada coleção.

Dispostos sobre estruturas de ferro fixadas em árvores ou no chão, os tecidos formam esculturas que chegam a medir 1,80 m de altura e pesar aproximadamente 30 kg, dada a gramatura do jeans. A presença delas num território agrário esvaziado pode evocar a falta de políticas públicas agrícolas como fator que impulsionou a transição do trabalho:­ do campo para fábricas de costura montadas em casa.

Ao flexionar arte, moda e mercado, as esculturas também renovam o imaginário criado há mais de cem anos em torno da região em que o trabalho foi desenvolvido. Com “Overlock”, Carlos Mélo aponta para uma região do Brasil onde a indústria e a tecnologia podem produzir artefatos; neste caso, deslocados para a arte contemporânea.

OVERLOCK
Pesquisa iniciada no começo de 2020, “Overlock” consiste na produção de uma série de obras em que são tratadas questões relacionadas ao impacto ambiental e cultural resultante do processo de industrialização têxtil ocorrido no Agreste pernambucano. O projeto parte do trabalho de um grupo de artesãs que vivem e trabalham na Vila do Vitorino, zona rural do município de Riacho das Almas, tradicionalmente conhecida pelo artesanato feito com fibra natural de vegetação rasteira hoje escassa na região. Inspiradas no fazer artesanal que se emprega no cipó, para a confecção de utilitário e mobiliário, as artesãs transferiram a técnica e o saber para os resíduos têxteis coletados nas fábricas de roupa que por lá se estabeleceram nas últimas décadas. As sobras, que seriam descartadas de maneira não sustentável, são trançadas e transformadas numa espécie de “jeans encorpado”. Geram, portanto, uma nova matéria-prima, que, neste projeto, foram deslocados para a arte contemporânea formando esculturas têxteis e performáticas.

 

ESCULTURAS TÊXTEIS
Os tecidos confeccionados pelas artesãs são montados sobre estruturas de ferro, formando esculturas que chegam a medir 1,80 m de altura e pesar aproximadamente 30 kg. Os suportes são pontiagudos, fixados em árvores, paredes ou no chão. No caso do tecido convertido em manto usado em performance, é exposto sobre uma base a que é preso com extensor elástico.

 

CINCO ESCULTURAS / UMA INSTALAÇÃO / LAND ART
As peças são obras autônomas, mas também criam um conjunto instalacional. A ideia da exposição virtual é montar as esculturas inseridas na paisagem ampliando o campo relacional entre a arte e o lugar, a natureza e a tecnologia, além do artista como agente cultural capaz de não apenas produzir obras de arte, mas também produzir sentido.

 

ARTE ÚTIL
Venho ao longo dos últimos anos trabalhando com comunidades de artesãos, quilombolas, e recentemente iniciando uma parceria com os polos tecnológicos, com a intenção de flexionar as fronteiras entre a Tradição e a Arte Contemporânea. Como a Bienal do Barro, por exemplo, idealizada por mim para discutir arte e comunidade como novos campos de inserção e pertencimento, pensando na descentralização do circuito artístico, para formação e produção, do centro para o interior. E também com a proposta de estabelecer diálogo entre a arte atual e novas técnicas de produção sustentável de artesanato e de arte no Brasil.

pensar que a chegada ­da indústria do jeans ao interior do Estado de Pernambuco, e sua consolidação como principal atividade econômica, expõe a falta de politicas públicas agrícolas. A transição do setor de trabalho e renda tem como principal impacto a saída do trabalhador do campo para montar nas suas casas facções de costura terceirizadas pelas fábricas.

No processo produtivo nas fábricas, com o recorte de tecidos para a produção de peças, são gerados resíduos – sobretudo, ourelas, que são os beirais descartados e reaproveitados pelas artesãs, que criam um novo tecido, um jeans encorpado.

Sobre o tecido reciclado, foram aplicados bordados, com minha orientação, missangas, paetês, faixas metálicas autocolantes, spikes etc. Remetem aos mantos do maracatu, a cerimoniais africanos e asiáticos, criando novos campos simbólicos. E também à customização da indústria da moda sobre os modelos de cada temporada.

Ao flexionar arte, moda e mercado, as esculturas pretendem problematizar o imaginário criado há mais de cem anos em torno de um Nordeste* caricato, fetichizado pelo “selo regionalista”, extraindo da tradição elementos que sinalizam uma mudança de paradigma sobre uma região do Brasil onde a indústria e a tecnologia podem produzir artefatos; neste caso, deslocados para a arte contemporânea, sem abrir mão de referências culturais, atualizando assim novos dispositivos de apreensão do artesanal, que não ficam mais retidos entre a economia criativa e o achatamento neoliberal.

“… a invenção do Nordeste, o surgimento de um recorte espacial, de um lugar imaginário e real no mapa do Brasil, que todos nós conhecemos profundamente, não importa de que maneira, mas que nunca pudemos imaginar com uma existência tão recente. E falar do Nordeste é inventariar os muitos estereótipos e mitos que emergiram com o próprio espaço físico reconhecido no mapa, composto por alguns estados e cidades. É mobilizar todo o universo de imagens negativas e positivas, socialmente reconhecidas e consagradas, que criaram a própria ideia de Nordeste.”

Durval Muniz de Albuquerque

*A Invenção do Nordeste e Outras Artes

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